sábado, 6 de março de 2010

Espelho meu

Ando pela vida ora distraída, ora assustada.
Quando distraída, vejo flores, árvores, ouço o canto dos pássaros apesar do burburinho da cidade grande.
De repente, assustada: as pessoas parecem observar meus passos, meu corpo, meu útero.
Tento correr. Não consigo.Os passos são trôpegos e o pensamento mergulha em trevas.
Lágrimas descem sem pedir licença.
O que mais desejo é a minha casa, casca de mim mesma.
Desejo a vida, ao mesmo tempo, afasto-a com grosseria.
Quero dormir o sono eterno.
Eternamente.
Enquanto isto, a chuva cai seguindo o titmo normal da natureza.
Enxugo as lágrimas, abro os olhos e vejo a rua de banho tomado.
Canto.O ninho acolhe a dor.
Mãos invisíveis acariciam meu cabelo.
Durmo. Os remédios são mais poderosos que meu desejo.
O leão se aquieta.
Por enquanto.
Júlia Carolina da Cunha. 22/11/05

Família

Um encontro de luz para uns,
Um cambalear estonteante para outros.

eis a vida,
ciranda,cirandinha a rodar
ena meia volta,
viravolteam pessoas estranhas lado a lado,
num ninho chamado família.

Em princípio, dois caciques ao som do atabaque
batucam sons de uma cartilha de uma nota só,
perfilando almas no quartel planejado
para enquadrar crianças bonitinhas:

"Marcha soldado,
cabeça de papel,
se não marchar direito, vai preso no quartel"...

O quartel pega fogo.

Almas perfiladas debandam cada um para seu lado.
E o quartel quadradinho vê escapar pelos quatro lados,
almas opostas.

Salve-se quem puder!
De boas intenções o inferno está cheio!

Soldadinhos bonzinhos ou bobinhos?
Ficam mais tempo,
como baratas tontas,
a cabeça zumbindo com a zoeira do sonho,
zuzunando esperanças zonzas
a catarem estilhaços de luz espalhados pelo redemoinho turbulento das ilusões

Vazio na alma solitária dos soldadinhos adestrados
pelo atabaque dos caciques.
O mundo não é quadrado como uma quartel,
nem as almas moldadas em forma de madeleines.

Mundo, vasto mundo,
Booolaaa...

Mundo redondo, sem quinas, esquinas, contramão, mundo infinito sob um manto azul, rosa, ouro, violeta, verde, vermelho, branco,
matizes como pinceladas de Monet.

Desencontros.
Almas penadas,
cada uma pra seu lado.
E para mim,,
liberdade ainda que de tardinha.

E de tardinha,
volta e meia, caminho distraída pelos jardins do mundo que é meu.
Sou livre.

Júlia Carolina da Cunha. Março2010

Desdobramento

Sou uma mulher de vermelho.
Vermelho que disfarça a escuridão da alma que insiste em se esconder em seu labirinto misterioso.
Piso devagarzinho nos mistérios que atordoam e fazem cambalear na noite escura.
Crio coragem. As palavras sábias de um amigo dão um sinal que é preciso caminhar pelo desconhecido coração.
Abro suas portas. As escoras evitam que passos trôpegos prossigam pelo caminho misterioso.
Vou devagar. O vermelho ilumina a lama dos compartimentos cheios de lodo, definindo onde posso pisar sem me ferir.
Desdobro em duas: uma de mim passeia por lugares floridos, iluminados, cheios de amor, alegria e sorrisos. Saltito, bato palmas e sinto feliz. Percorro os mistérios da vida que encantam o viver: são sorrisos, beijos molhados, música, sons de violino, travessuras de criança, que hoje adulta, continuam a dar alegrias.
As janelas estão abertas e a luz descortina um caminho novo:"toco novas canções no mesmo violão".
Preciso pisar na lama e sentir o cheiro de lodo do lado escuro.
Outra de mim tem essa missão. Não é fácil.É como um disco quebrado arranhando o vinil e sangrando o peito que explode de dor. O bolor entope as narinas, fere as mãos: a alma embolorada quer dar as cartas.
Entro em cada compartimento, abro as janelas. O peito arfanteaflito pede socorro. Não é possível tanto breu.
A luz teima em entrar devagarinho.O bolor se desmancha diante da luz.
O vermelho se respinga de podridão. E a luz dos poetas transformam em pétalas de chuva o conhecido coração.
O arco íris ilumina as artérias fazendo pulsar o sangue das veias. Por elas passam o amor. O lado escuro não resiste à luz, ao brilho de vagalumes que desmancham remédios com o mistério de sua sabedoria. Sua luz é mais forte que o neón. Sua luz translúcida pisca e repisca enchendo de amor a vida da vida. Num passe de mágica volto a ser única. Desdobrável, mas inteira.
Júlia Carolina da Cunha. Março/2010

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Meu nome é Júlia. E o seu?

Descubro quem sou.
Deitada no divã, a alma se desnuda sem pudor diante de mim.
A cada hora mostra uma faceta que eu jurava conhecer:
suas curvas, retas, em sua maioria curvas sinuosas e lindas.
A alma é colorida: cores se revolvem num movimento lúdico, ora feliz, ora triste.
A dança é sensual: descobrir-me permite orgasmos múltiplos redesenhados entre risos e sorrisos faceiros.
Sou alma ambulante perdendo o medo de ser feliz.
O balet é sinuoso e as curvas são feitas com doçura de acordo com a música de Mozart.
Meu nome é Júlia.
E o seu?

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Casinha

Nas aulas de português do Colégio Pio XII
a professora mandava fazer redações.
Para mim , escrever redações era a mesma coisa que soltar as asas da imaginação
e falar dos flamboyants floridos na primavera e
não existissem flores.

As flores sempre existiram em minnhalma,
mesmo quando só eu as vejo.

E a casinha é feita de flores
de todas as cores.

E a imaginação vagueia
entre flabomyants floridos na primavera

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Festa de batizado

O coração bate descompassadamente.
Massas e maçãs escorrem pela boca
num movimneto de prazer.
Vinho enrubesce as bochechas, não sei se de gozo ou timidez...
Música suave, sons de sax e do violino que insiste em se mostrar.
Olhares se cruzam num movimento de busca de um passado distante,
mas que insiste em se fazer presente.
A persiana bate pela janela e a lua se faz minguante.
O teatro acabou. Fecham-se as cortinas.
Fim do primeiro ato!

Sonho de criança

O coração bate descompassadamente.
Massas e maçãs rodeiam o paladar dando água na boca...
Música suave, vinho colorindo as bochechas,
não sei se de prazer ou timidez.
Sons de sax, notas dissonantes do violino que insistem em se mostrar.
Olhares se cruzam como a buscar um passado que ficou distante.
A persiana bate na janela mostrando que a lua é minguante.
Acorda, menina. O teatro acabou. Fecham-se as cortinas.
Fim do primeiro ato.